Animal sagrado da Índia é ícone do agronegócio
FORMOSO DO ARAGUAIA (TO) - Quark é uma espécie de Brad Pitt da pecuária brasileira: um metro e oitenta de altura, mais de uma tonelada de peso, musculatura bem definida, costelas largas, traseiro avantajado, testículos bem desenvolvidos - tudo que uma vaca ou um pecuarista poderiam querer para os seus bezerros. Ele é o touro número um do ranking de reprodutores nelores da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Uma obra viva de tecnologia em carne e osso, resultado de mais de meio século de melhoramento genético do rebanho nacional.

Essa é a foto do Brad...ops, do Quark
MELHORAMENTO GENÉTICO 'NO OLHO'
O processo de melhoramento genético é igual para plantas e animais. A cada ano, no caso do gado, os melhoristas selecionam os melhores animais de um determinado rebanho e os utilizam como "reprodutores genéticos" para compor os rebanhos dos anos seguintes, de forma que as características desejadas sejam transmitidas via DNA para as próximas gerações. Com o tempo, os genes desses animais se disseminam pela população, melhorando a qualidade do rebanho como um todo.
Ao contrário do que ocorreu em culturas agrícolas, porém, em que as instituições públicas de pesquisa comandaram a inovação tecnológica do setor, o melhoramento do rebanho brasileiro foi feito principalmente pelos próprios criadores. "Nossa pecuária foi toda feita no olho", diz o especialista em melhoramento genético da ABCZ, Carlos Henrique Machado. "O Brasil é o que é hoje graças ao olho dos nossos profissionais."
Uma nova importação de zebuínos da Índia - a primeira desde 1962 - foi autorizada em fevereiro pelo Ministério da Agricultura. Só que dessa vez os animais virão na forma de embriões congelados, produzidos de animais selecionados por técnicos da ABCZ. Apesar de serem animais rústicos, é algo que "vai ajudar a refrescar um pouco o sangue do rebanho", explica Machado.
O gado que chega hoje do campo para o açougue é muito diferente do que chegou da Índia para o Brasil um século atrás. Ficou maior, mais pesado, mais resistente, mais eficiente, mais fértil e mais precoce. Animais que na década de 70 eram mortos com cinco anos hoje já chegam ao peso de abate (18 arrobas) com dois anos e meio, graças a uma série de melhorias genéticas, nutricionais e sanitárias. "É um ganho não só de tempo, mas de qualidade, pois o animal mais jovem tende a ter uma carne mais macia", diz o especialista Kepler Euclides Filho, pesquisador da Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande (MS).
Em condições ideais, animais nelores superprecoces são abatidos com 18 meses. "Basicamente, queremos um animal que cresça rápido, coma pouco e produza bastante carne", resume Caetano, do Cenargen-Embrapa.
Quark é exemplo de um "animal elite" que combina várias dessas características. As estatísticas mostram que os bezerros produzidos com seu sêmen desmamam mais cedo, ganham peso mais rápido e são reprodutores mais eficientes do que a média dos rebanhos. "É um touro excepcional, que contribuiu muito para a pecuária de corte no Brasil", diz Marcos Labury, gerente da Alta Genetics, em Uberaba (MG), empresa especializada no comércio de sêmen bovino. Ele calcula que Quark já tenha produzido cerca de 80 mil filhos, mais uma incontável prole de netos e bisnetos - que são os animais que vão de fato para o frigorífico.
O sêmen é comercializado em tubinhos congelados de 0,25 mililitro, que depois são usados para inseminar as fêmeas. Os garrotes que nascem são usados como doadores genéticos ou soltos no pasto para cobrir as fêmeas do rebanho de corte. Uma amostra seminal de Quark custa R$ 40 - mais que o dobro da média de um bom animal. O sêmen mais caro do mercado, vendido a R$ 250 o tubinho, é do touro Basco, um nelore de 5 anos leiloado no ano passado por R$ 4 milhões - o boi mais caro do mundo, segundo Labury.

